Como fazer guarda no MMA? aprenda os segredos para lutar com as costas no chão

Fabricio Werdum

O vale-tudo nasceu da necessidade que a família Gracie tinha de provar que o jiu-jitsu era a mais eficiente das artes marciais, principalmente em um combate sem tempo ou regras. Desde a década de 30, os duelos da modalidade ferviam a cidade do Rio de Janeiro e Carlos e Helio Gracie costumavam finalizar todos os seus adversários.

Como era franzino e às vezes não tinha força para derrubar os rivais, muitos deles judocas mais pesados, Helio Gracie se tornou um mestre em jogar por baixo e pode ser considerado o inventor da guarda de jiu-jitsu, posição de onde ‘cozinhava’ seus adversários, aproveitando a ausência de limite de tempo, antes de finalizá-los.

Muitos anos depois, no início do MMA moderno, Royce Gracie continuou a provar a eficiência da guarda e, a exemplo dos feitos de seu pai, esperava adversários cansarem para dar o ataque final. E foi assim que o brasileiro venceu, em 1994, o torneio do UFC 4, finalizando o gigante Dan Severn com um triângulo, após mais de quinze minutos de combate em que foi amassado pelo americano.

No entanto, nas edições seguintes do torneio, os wrestlers, guiados pela técnica criada por Mark Coleman e batizada de ground and pound, aprenderam a se posicionar de forma defensiva na guarda do oponente e aproveitar qualquer oportunidade de atacá-lo, minimizando as chances de finalização.

Com este “antídoto” em jogo, o jiu-jitsu perdeu sua hegemonia nas artes marciais mistas, que só foi recuperada pelo baiano Rodrigo ‘Minotauro’, peso-pesado guardeiro que chocou o mundo ao mostrar que ainda era possível lutar com as costas no chão e vencer, de forma ainda mais dinâmica do que os Gracie faziam.

Anderson Silva

“O Minotauro representou muito bem a guarda ofensiva no MMA. Ele controlava seus adversários e raspava todo mundo”, reconheceu o lutador Fabrício Werdum, próximo desafiante ao cinturão dos pesos-pesados do UFC.

Já em 2005, a Comissão Atlética do Estado da Califórnia oficialmente sancionou as Artes Marciais Mistas, unificando um conjunto de regras válidas até hoje que dificultaria ainda mais a vida dos guardeiros no octógono.

Se já não bastassem os wrestlers terem aprendido o jiu-jitsu, com as novas regras, a luta passou a ser disputada em três rounds de cinco minutos e, em caso de pouca movimentação no solo, o juiz passou a mandar os lutadores se levantem. Tiraram a ‘pedalada’, que era um golpe muito usado por quem estava por baixo, mas deixaram as cotoveladas, arma fatal dos wrestlers que costumam jogar por cima.

Com este cenário, onde a parte física e a limitação de tempo tem sido determinante e o ground and pound uma ferramenta poderosa, resta a dúvida se ainda existe espaço para os guardeiros no MMA moderno. E, para elucidar a questão, a Ag. Fight conversou com cinco faixa pretas da arte suave.

‘Pé na virilha’ vs. guarda fechada

Murilo BustamantePara Murilo Bustamante, primeiro brasileiro a ostentar um cinturão do UFC, o dos pesos médios (84 kg), ainda é possível jogar com as costas no chão, desde que a ofensividade seja mantida.

“Basta o cara saber se defender bem e atacar na hora certa. Quando você está na guarda, tem que tomar a frente do combate, não pode ficar parado. Não adianta querer fazer guarda 50-50 ou berimbolo no MMA, tem que ser algo eficiente’, garantiu o líder da BTT, que defendeu com êxito seu cinturão do UFC finalizando Matt Lindland, com as costas no chão, em 2002.

Atual desafiante peso-pesado do UFC, Fabrício Werdum evoluiu muito em pé, mas foi de dentro de sua guarda que conquistou o maior feito de sua carreira: finalizar com uma chave de braço de dentro do triângulo o até então imbatível Fedor Emelianenko.

O feito foi realizado em 2010 e Werdum acredita que o uso da guarda teve que se modernizar para acompanhar o ritmo do MMA. O gaúcho revelou que uma boa opção é usar o pé na virilha do oponente, dando mais dinamismo a posição.

“Sabemos que a regra não favorece. Minha opção é fazer uma guarda ativa, com o pé na virilha. Vejo os caras fechando a guarda e tomando cotoveladas, cortando o rosto, e não abrem a guarda. Com o pé na virilha você controla o oponente, tem opção de arm-lock, triângulo, omoplata e pode ficar de pé. Quando fico por baixo os caras não conseguem me bater. Quando tentam, eu consigo reverter a luta com uma finalização ou uma raspagem”, declarou.

Puxar para guarda é loucura?

Charles ‘Do Bronx’sCom uma das guardas mais dinâmicas do MMA atual, o peso-pena (66kg) Charles ‘Do Bronx’s’ é especialista em lutar por baixo. O paulista controla o punho dos adversários dentro de sua guarda, tira triângulos e arm-locks da cartola e abusa das cotovelas mesmo com as costas no chão. E, assim como Werdum, Charles aponta a versatilidade como arma.

“O diferencial da minha guarda é que eu fico à vontade e procuro ser bastante agressivo. Quando estou de costas no chão, não acho que estou perdendo. Tem que ser agressivo e fazer o adversário pensar, dar cotoveladas, sair o quadril, atacar arm-lock, triângulo, tem que deixar o cara ocupado”, disse Charles, ganhando aval do atleta da academia Nova União, Thales Leites que, assim como o paulista, ainda acha possível ir para a “posição de sacrifício”.

“Puxar pra meia é uma opção boa, para eu raspar ou já sair nas costas. O Charles representa muito bem, joga solto, busca trazer o cara para a guarda dele, faz uma guarda ofensiva, fica bem calmo. Adoro ver a luta dele, está de parabéns. Alguns pensam que atualmente fazer guarda no MMA é loucura, mas o Charles prova que dá para fazer”, elogiou Thales.

Com opinião diferente, o ex-atleta da seleção brasileira de luta olímpica e faixa-preta de jiu-jitsu Marcelo ‘Magrão’ Guimarães, que atua entre os pesos médios (84 kg) do UFC, apontou a evolução do esporte como fator complicador para a vida de quem joga por baixo.

“Ficou mais difícil fazer guarda no MMA atual, porque os Gracie dominavam e o jiu-jitsu ainda não tinha chegado com força em todos os países. Se colocasse os lutadores de MMA de antigamente para competir no UFC atual, eles iriam morrer. Fazer guarda seria fatal para eles”, garantiu.

 

Como Magrão costuma derrubar os seus oponentes e trabalhar o ground and pound, o wrestler deu algumas dicas para o lutador não ser surpreendido por uma guarda perigosa.

Rony Jason

“O segredo é estar preparado fisicamente, taticamente e tecnicamente e sempre agredir o adversário para que ele fique desconfortável por baixo. Não ficar dando mole com os braços esticados é fundamental. Bater firme e mirar a ponta do nariz dificulta a vida de um guardeiro”.

Acostumado a lutar por baixo, ‘Do Bronx’s’ discorda e, sem ter vergonha de puxar para a guarda, garantiu que deitar de costas no tablado é, sim, uma opção de combate nos dias atuais.

“Se eu não conseguir derrubar o cara, não tenho vergonha nenhuma de puxar para a guarda, pois vou me sentir melhor do que se eu tiver tomando prejuízo em cima. Meu golpe favorito é o triângulo, pois tenho as pernas longas e o quadril solto, por isso faço muitas repetições e minha guarda está tão boa”, concluiu.

Sem nunca ter sido derrubado em um combate de MMA, Magrão apontou que puxar para a guarda pode ser uma estratégia, mas que o risco é maior, tanto de perder, como de ser ridicularizado.

“Sim, é possível (puxar para a guarda), caso você esteja enfrentando um wrestler com uma trocação melhor do que a sua. Você terá a chance de raspar e ficar por cima. Mas se o wrestler for malandro, vai te humilhar mandando você ficar de pé para apanhar mais”, concluiu

Fonte do Artigo: MSN Esportes

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